Era tarde, muito tarde da noite quando choveu.E quem estivesse na rua e olhasse pra cima veria uma luz muito tênue vinda do 1° andar da casa.Mentira:quem é que andaria na rua num temporal daqueles?E se andasse, quem é que olharia pra cima?E ainda que olhasse, só veria chuva, talvez raios ocasionais e o céu negro , como um abissal abismo visto de dentro.
Do lado da cama, uma luminária amarela no criado – mudo ilumina fracamente a escuridão do quarto.Bem encolhida sobre a cama, no canto da parede,lá está ela, abraçando as pernas como se a cama estivesse cercada de víboras. Mas na verdade sobre a cama havia apenas rascunhos de poemas .. desabafos de uma mente que sofre.O olhar estava perdido no vazio.
“Estou ficando louca.” pensa “ Como se isso fosse possível, ficar o que já se é faz tempo”. E , num salto, ela levanta e começa a andar pelo quarto “ Como é que vai ser?O que eu posso fazer agora?” Começa a revirar os rascunhos e jogá-los por toda parte. “Cigarros.Preciso de cigarros” pensa em voz alta. “ Mas eu não fumo!” Gargalhada. “ Já estou louca”.
E desaba, ajoelhando no chão, num choro aflitivo e mudo “ Perdi .Game over. Espero que ela possa fazê-lo feliz como nunca fiz.Tá tudo errado, tudo! Eu estive errada o tempo todo, deduzi errado, vi errado, senti errado,pensei errado.Amei errado.Não era você.” A última frase saiu dos pensamentos para a voz . “Não era você”, ela repete.
Então de repente sai do transe e começa a recolher os papéis. “ Não.....era você sim.Nunca errei nisso.O erro foi seu.”
Do outro lado da história, na outra cidade, ele está deitado em sua cama, mas não está dormindo.Aparentemente ele achou algo muito interessante no teto.Quer dormir, mas os olhos não obedecem. “Será que fiz a coisa certa?Acho que sim.Foi melhor assim.Preciso de uma nesga de normalidade, quero me incluir no mundo.Preciso me sentir normal, simples, comum, como todos...e encontrei alguém assim: normal,simples, comum, como todas.Como todas. Mas se minha consciência está tranqüila,porque essa sensação de vazio?Porque esse nó na garganta?” Em algum lugar distante devia estar chovendo. " Quem dera chovesse aqui hoje....talvez a chuva lavasse minha culpa.Mas culpa do quê, exatamente?Onde é que eu errei, afinal...só tô tentando ser feliz, tocar minha vida como qualquer outra pessoa!Qualquer outra pessoa...." Vira –se pro lado e encara a parede.Branca.Pisca uma, duas, três vezes.Fecha os olhos : Branco.Abre os olhos, Branco.E assim serão seus sonhos esta noite: Brancos.
Salto alto vermelho, longos cílios pintados propositalmente de negro, olhos verdes. O sol ardente do dia seguinte praticamente esconderia a tempestade do dia anterior se não fosse por um brilho estranho recém-descoberto no olhar.Ela pisa uma bituca velha de um cigarro jogado na rua enquanto caminha a passos confiantes.Um riso de esguelha surge no canto da boca.
E ele , o cara finalmente certo, normal, simples, e como todos os outros, segue olhando para o chão de uma outra calçada.Cinza. A partir daquele momento, seus dias seriam assim: Cinzas.Como todos,normais,simples.

Ai como eu queria arrancar um beijo da boca debochada dessa moça!rssss O texto tá lindo,parece que eu to vendo vc nela.Muito bem escrito.
ResponderExcluirSe controla, bicho safado......ahushuashuahus
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