segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reconciliação


        Sentada, ao luar de uma varanda, escrevo.Ali, ouço a música distante que o bosque a minha frente parece emanar. 
         A santidade da natureza apresenta- se a mim na forma de uma brisa gelada.Meus cabelos , iluminados pela Lua, respondem ao afago do vento com um leve esvoaçar.Levito.
Da varanda vejo a lareira: lá, uma brasa insiste em resistir –se acesa.Recordo nós dois, ali, rindo,brindando `a nossa inocência.Chove.
O cheiro da terra molhada chega até a mim como uma prece.Levanto e entro: vou reacender a lareira.Olhando o fogo sinto um arrepio semelhante ao que eu sentia quando seus olhos me fitavam.Desperto.
Em um canto da sala adormece em um piano.Ágeis, meus dedos o despertam em lindas mazurcas, polkas e sonatas.Relembro seus toques.Recordo você .E choro.
Abafada pelos trovões, ouço uma batida na porta.Estremeço:Será você?O caminho até a porta parece uma ponte entre o invisível e o impossível.Abro.Paro.
Todo molhado e com os cabelos em completo desalinho, está você, a me olhar fixamente nos olhos.Pela luz do fogo posso ver seus olhos, vermelhos como os meus:você chorou também.
Num impulso , sinto seus braços me circundarem num abraço aflitivo e compulsivo.Freneticamente choramos.
Agora o tempo parece não importar mais.Loucura, mágoa, desejo, amor.Tudo se funde em sensações que jamais poderei descrever.Somos apenas uma choupana na imensidão do vale.A brisa transformou - se lentamente num temporal.A cada minuto, o fogo da lareira se consome.Ali, depois de momentos de suprema felicidade, dormimos...

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

La tempête qui arrive est la couleur de vos yeux.....

Era tarde, muito tarde da noite quando choveu.E quem estivesse na rua e olhasse pra cima veria uma luz muito tênue vinda do 1° andar da casa.Mentira:quem é que andaria na rua num temporal daqueles?E se andasse, quem é que olharia pra cima?E ainda que olhasse, só veria chuva, talvez raios ocasionais e o céu negro , como um abissal abismo visto de dentro.
            Do lado da cama, uma luminária amarela no criado – mudo ilumina fracamente a escuridão do quarto.Bem encolhida sobre a cama, no canto da parede,lá está ela, abraçando as pernas como se a cama estivesse cercada de víboras. Mas na verdade  sobre a cama havia apenas rascunhos de poemas .. desabafos de uma mente que sofre.O olhar estava perdido no vazio.
            “Estou ficando louca.” pensa  “ Como se isso fosse possível, ficar o que já se é faz tempo”. E , num salto, ela levanta e começa a andar pelo quarto “ Como é que vai ser?O que eu posso fazer agora?” Começa a revirar os rascunhos e jogá-los por toda parte. “Cigarros.Preciso de cigarros” pensa em voz alta. “ Mas eu não fumo!” Gargalhada. “ Já estou louca”.
            E desaba, ajoelhando no chão, num choro aflitivo e mudo “ Perdi .Game over. Espero que ela  possa fazê-lo feliz como nunca fiz.Tá tudo errado, tudo! Eu estive errada o tempo todo, deduzi errado, vi errado, senti errado,pensei errado.Amei errado.Não era você.” A última frase saiu dos pensamentos para a voz . “Não era você”, ela repete.
            Então de repente sai do transe e começa a recolher os papéis. “ Não.....era você sim.Nunca errei nisso.O erro foi seu.”



            Do outro lado da história, na outra cidade, ele está deitado em sua cama, mas não está dormindo.Aparentemente ele achou algo muito interessante no teto.Quer dormir, mas os olhos não obedecem. “Será que fiz a coisa certa?Acho que sim.Foi melhor assim.Preciso de uma nesga de normalidade, quero me incluir no mundo.Preciso me sentir normal, simples, comum, como todos...e encontrei alguém assim: normal,simples, comum, como todas.Como todas. Mas se minha consciência está tranqüila,porque essa sensação de vazio?Porque esse nó na garganta?” Em algum lugar distante devia estar chovendo. " Quem dera chovesse aqui hoje....talvez a chuva lavasse minha culpa.Mas culpa do quê, exatamente?Onde é que eu errei, afinal...só tô tentando ser feliz, tocar minha vida como qualquer outra pessoa!Qualquer outra pessoa...." Vira –se pro lado e encara a parede.Branca.Pisca uma, duas, três vezes.Fecha os olhos : Branco.Abre os olhos, Branco.E assim serão seus sonhos esta noite: Brancos.




            Salto alto vermelho, longos cílios pintados propositalmente de negro, olhos verdes. O sol ardente do dia seguinte praticamente esconderia a tempestade do dia anterior se não fosse por um brilho estranho recém-descoberto no olhar.Ela pisa uma bituca velha de um cigarro jogado na rua enquanto caminha a passos confiantes.Um riso de esguelha surge no canto da boca.
           

E ele , o cara finalmente certo,  normal,  simples, e como todos os outros, segue olhando para o chão de uma outra calçada.Cinza. A partir daquele momento, seus dias seriam assim: Cinzas.Como todos,normais,simples.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Zoológico, lógico...

Ninguém olha para mim
Porque não existo;
Quero expulsar
Toda essa dor
E abandono.

Quero poder não querer nada,
Quero poder morrer.
Quero poder morrer sem me sentir culpada;
Quero poder morrer...
Quero poder morrer tranqüila.

Tranqüila como nunca estive,
Tranqüila como eu não sei como é!

Quanta porcaria eu guardei
Para pôr no lugar do nada!
Idiota que sou...
O nada está, o nada é!

Sei que os remédios podem me deixar feliz
Mas, me pergunto redundantemente, até quando?
E sem eles
Quem sou eu?
Uma horrorosa – ignorante – melancólica – egoísta.
E fraca.

O que consegue o natural?
O previsível!O morrer!

Eu só queria ser alguém especial,
Única...
Adoro quando falam:
 “Puxa, você é diferente!”
Por que não me levam para casa então?

E você, que já conheço e me dói,
Me perturba.
Me liga.
E eu te falo abertamente:


Tenho medo de você.

Nunca ninguém me disse querer ter um filho comigo!

E você conhece todas as minhas loucuras...
Você já me viu na incapacidade de pensar no lógico
E mesmo assim nunca me beijou.

Nunca beijou a boca que te morde diariamente,
Nunca beijou cada dedo que te tocava epicamente,
Mas
Pensou em mim e me amou.
E eu pensando em me matar,
Pois não agüentava a dor desse amor!

Até hoje não agüento.

Fujo dele, e tento sempre,
Mesmo batendo os dentes,
Lembrar daquela imagem
Onde eu te via como meu total oposto
Belo e sorridente.

E via - te mais uma vez, pois
Eu também não era a única;
E  odiava – o ,
Odiava !!Aliás ,

 odeio você.

Porque você não tem vontade de ter u m filho comigo
Mas sim de povoar o mundo ,
Jorrar sua genética
Seja em que fêmea for !
Qual é o seu critério de escolha?

E me sinto tão qualquer
Como os filhotinhos de uma pata, sem a mãe pata
Ingênuos atrás de uma ilusão,
Enquanto um anda atrás do outro
Seguindo sua máquina mãe.

Estúpida e digna de pena, assim me sinto.
Pois mesmo assim

Me agarro ao carinho que você me deu
Eu, um ser que tudo aceita
Para se livrar dessa sensação de vazio e dor.

Tudo aceito

Tudo

Morte, sexo, drogas, vinganças, álcool, doutrinas,maldições, mentiras, distrações, escritos, leituras, palavras, ilusões, delírios, outras dores, tradições, futilidades.

Me parta em duas
Ou em milhares
Mas não me deixe
Sem meus extremos,
Branco e preto ,
Louca e equilibrada .

Isso é uma súplica .

Onde está a beleza da  "suprema experiência "
Que você alcançou ? Ahhh me poupe !

Você não ouviu nada 
Mas eu te disse tudo.
E vou repetir eternamente, porque preciso
Porque quero que você saiba
Saber ouvir é uma arte
Mas você não me diz nada, apenas
Me sorri e me abraça .

Não quero sua pena, não quero seu carinho mirrado.
Suas migalhas são poucas?Dê aos cães!
Lamento apenas o que não pude te dar
Porque seus braços estavam fechados.
Lamento o que não pude te mostrar
Porque seus olhos olhavam para dentro
E lamento, acima de tudo,
Seu futuro

Porque terei a certeza de que
Não me arrependi de nada.
Quanto a você,
Vais morrer bem velhinho
E aquecido.
E infeliz.

Porque um dia,
Quando você chegar em casa
Vai encontrar a janta pronta, os filhos na cama,
Vai tomar seu banho,
Deitar ao lado da sua fêmea
(seja ela qual for, porque não faz diferença mesmo),
Copular da maneira mais medíocre que existe,
E, enquanto sua fêmea dorme feliz
(por achar que fez a sua parte bem feita),
Você vai virar para o lado,
Fechar os olhos, mas não vai dormir.
Vai pensar em mim
Vai pensar em mim com todas as forças,
Vai pensar onde eu estou, com quem estou...
E pode até chorar, porque
Eu sou teu travesseiro.
E vai pensar: Perdi minha vida.

E, tenha certeza, de onde estiver,
Eu vou te sorrir.
Não de alegria; não... Não mais.
Mas de pena.
Porque o que estiver ao meu lado
Será o homem mais feliz do mundo
Mas a minha felicidade
Será incompleta.
Porque minha outra parte
Perdeu a vida
Do jeito mais doloroso possível:

Não vivendo.


Deus só me deu uma pilha
Pra ouvir um walkman.
Posso ouvir uma música bem alta e dançar feliz
Ou ouvir várias músicas bem baixinhas...
Adivinha qual eu quero!

Agora só preciso chorar um pouco

Eu e você
Adoramos o frio, o vento, a chuva;
Mas o sábado estava quente e ensolarado
Na mureta de um jardim zoológico, claro..

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Insônia





Maldito Eros que me suplanta a inconsciência,
São quase quatro horas da manhã.
O relógio é apenas um dos círculos de Hades,
Nele vejo Cérbero rosnando....que inferno!
Duas noites insones me tiram o ar
E minha segunda mente não pára nunca,
Repetindo uma cantiga de roda já esquecida há muitos Eros
E eu aqui, neste circulo do inferno,
Sofro as angústias que somente os loucos sofrem
Já que os sãos não carecem de sofrimento, apenas alegrias incautas
E sorriem.
Que inferno!Porque diabos sorriem os sãos?
Não deviam ser os loucos como eu que gargalham freneticamente?
Ar, preciso de ar....porque este me falta agora?
Aliás, alguma vez eu tive ar por acaso?
Preciso vomitar essa vontade de viver,
Preciso sair daqui.
Agora.
Preciso fugir, fugir.
Solidão: sinto meu coração bater o tempo todo,
Arritmicamente pulando, que inferno!
Porque não pára logo de bater, hein?
Porque não me dá o prazer da paz?
Porque insiste em lutar por mais uma noite,
Se tudo o que eu quero é dormir?

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Take 2



Teimosia, não é teimosia se não for teimosia. Reabro a porta da capela pra me manifestar com muita tristeza sobre você ( piegas ao máximo...) Mas o mundo anda hostil !Não sei me exibir pra solidão. Não solta da minha mão.
Não consigo ficar sem pensar... aquele momento... como se fosse uma sacudida pra me acordar do pesadelo... do sono pesado. Acordar e ter a certeza, e a surpresa de que tudo foi só um sonho, um sonho dos piores. Sonho que é ruim. Depois de tantos sonhos sonhados com alegria.
Limites são erros de programação... o meu amor não tem erros. É simples, honesto e educado. É talvez um caminho. É uma coisa de que me orgulho. Mas não posso deixar de lamentar a tua ausência. Fico aqui curtindo a saudade que é saudável. Saudade que tende ao infinito.

Abre essa porta, não se faz de morto.

Moço! Olha só o que eu te escrevi... deixa o verão pra mais tarde... eu levo essa casa numa sacola... me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora... 


                                                                                                To be continued

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Take 1



         Nada mais será escrito. Nenhuma lamentação. Nenhuma declaração. Nenhuma opinião. Já perdi demais durante essa existência. Estou aqui apenas fechando a porta da capela do velório. Se essa atitude vai ser "adulta", experta, egoísta, não sei. Mas é. Já foi.Amar demais é sofrer com certeza. Espero não sofrer mais por isso. Entreguei os pontos. Minha teimosia não é mais duradora como antes.
Fibra moral. Mas o que é fibra moral? Quer dizer... é engraçado. Eu achava que era sempre dizer a verdade, fazer coisas boas... sabe, basicamente ser uma porcaria de uma escoteira. Mas ultimamente eu comecei a pensar diferente. Agora eu acho que fibra moral se trata de encontrar uma coisa que a gente realmente goste. Uma coisa especial. Que signifique mais pra você do que qualquer outra coisa no mundo. E quando você encontrá-la, que você lute por ela. Arrisque tudo. Coloque-a na frente de tudo. Do seu futuro, vida.. de tudo. E talvez o que fizer pra ajudá-lo não seja assim tão limpo. Quer saber?... Isso não importa. Porque lá no fundo você sabe que isso valeu muito a pena. É disso que se trata fibra moral.
Evanescence tocando no rádio. Um salão imenso, vazio. Com luzes azuis. Eu e você dançando. Cada movimento é como se fosse um filme de três horas. Cada abraço é como se fosse a maior e mais forte das prisões. A respiração sai forte. O coração pulsa "loucamente". A emoção é indescritível. É um sonho. Um sonho dos mais lindos. Dos mais amarelos. Daqueles que nos fazem pensar que estamos flutuando.
O beijo na mão. O beijo mais lindo, forte e sincero. É isso... é toda a minha vontade e meu desejo. Todo o meu amor.

Escuro. Onde estou está escuro. Há uma luz em algum lugar. E não consigo alcançar. Desde que acordei hoje nesse lugar, sinto um vazio, um torpor e vontade de gritar. Gritar? ... é, gritar. O fluxo descontínuo de pensamentos ruins vai acabando. Com a solidão, vou me acostumando. As coisas estão todas indo para o seu lugar. A saudade é uma companheira leal e paciente. Ouço ruídos e gente chorando. Gente se divertindo e gente se amando. Brigando. Todos gritam mas eu não posso. E em cima da luz que minha mão não alcança está escrito: ESPERANÇA.


                                                                                            To be continued
                                                                                       ( concebido em 10/07/2005)